Portugal
Sociedade / Política

Simbolos de decadência ?

por Paulo Mendonça
10.06.2006


Dia 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
Neste dia, é suposto homenagear a nação que é Pátria comum de todos os portugueses, de esquerda ou de direita, magros ou gordos, feios ou bonitos, pretos ou brancos, monárquicos ou republicanos.

As Forças Armadas - que são um do símbolos dessa nação – são também um símbolo da determinação de um povo, que se expressa em quase mil anos de existência.

Neste ano de 2006, em que por decisão do Presidente da República foram pela primeira vez homenageadas as Forças Armadas Portuguesas, na data que coincide com o dia que lembra a Nação, foi efectuado um desfile militar na cidade do Porto, onde participaram os vários ramos das Forças Armadas.
É de louvar a iniciativa, porque passa pela promoção de símbolos nacionais como o são as Forças Armadas – o tão necessário ganho de auto-estima.

O desfile.
Costuma-se dizer que se pode analisar a qualidade de uma força pela forma como marcha. Normalmente, para um civil pouco habituado a este tipo de assuntos e que normalmente olha para as fardas, para as cores, as boinas e as armas, estas questões passam um pouco ao lado. Houve-se até dizer que a tropa só serve para fazer desfiles, ou que só fazem boa figura nos desfile, mas não é assim.

A verdade é que se notou em mais um desfile, o que já se vem a notar – infelizmente – de há uns anos a esta parte. Os desfiles militares não são exactamente bem organizados e coordenados. Parecem ser desfiles de segmentos com pouca coordenação, em que umas vezes se separam as forças dos vários ramos por grandes espaços, quase dando a impressão de que o desfile acabou e noutros casos os militares quase embatem uns nos outros, tornando difícil entender onde começa uma força e acaba a outra. Para juntar à festa, a realização esteve mal, aproveitando-se para entrevistar os transeuntes quando as tropas estavam a desfilar, e ao contrário do que é normal nos desfiles, não houve nenhum tipo de informação sobre o tipo de meios que estavam a desfilar. Nem informação técnica, nem genérica, nada!

No desfile de 10 de Junho, as coisas não correram bem.
As tropas, ou parte delas, desde o inicio que mostraram ter um grande numero de militares incapazes de acertar o passo. O movimento de braços e pernas numa parada militar, que deve ser escorreito e fluido, era forçado e mecânico, demonstrando grande vontade de acertar, mas falta de treino de «ordem unida» para o fazer. No desfile perante a tribuna de honra, as coisas correram menos mal, embora se notassem consideráveis diferenças na “qualidade” da marcha.

O desfile a pé «musicado» acabou com o desfile da banda, passando-se posteriormente à parte do desfile dos veículos. Diga-se aqui em abono da verdade, que em muitos desfiles no estrangeiro a que assistimos pela televisão, há um acompanhamento musical para o desfile dos veículos militares. Parece que em Portugal, decidimos poupar as bandas, o que não é desculpa, pois o acompanhamento do desfile mecanizado com musica marcial, poderia ser feito através de uma instalação sonora ao alcance de qualquer comissão de organização de festas de bairro.

As coisas continuaram mal, quando o desfile mecanizado, que parecia vir de outro lado para participar numa cerimónia distinta (que ocorria uns minutos mais tarde), demorou a chegar, demonstrando falta de coordenação entre os comandantes das várias forças em presença.

O desfile não foi fluído e natural e chegou-se ao ponto de ter havido um engarrafamento mesmo em frente à tribuna de honra, sendo que até o primeiro ministro e o presidente soltaram mal disfarçados sorrisos.

O ponto alto do desfile, no entanto, ocorre quando um carro de combate M-60A3 da Brigada Mista, começa a deitar fumo no meio da Avenida do Brasil
Inicialmente parecia um pequeno problema, pois todos os M-60 são veículos bastante poluidores, e mais ainda à medida que envelhecem. Mas depois tornou-se óbvio que o problema era mais complicado. Toda a área onde se encontrava o blindado ficho repleta de fumo, o comandante do veículo saltou para fora e mandou que os populares se afastassem. De aí resultou mais um engarrafamento antes da ligeira curvatura da avenida antes de chegar ao palanque onde se encontrava o presidente.

Felizmente, seguindo as velhas regras dos desfiles, que dizem que em que no caso de haver problemas com um dos elementos os outros devem seguir em frente, o desfile prosseguiu. O carro de combate ficou imobilizado, no meio da fumarada do lado esquerdo da via, sendo circundado pelos veículos que ainda tinham que desfilar.

Porém o mal estava feito.
O problema com o carro de combate M-60 é apenas uma demonstração da situação de catástrofe a que chegou o estado dos veículos do exército português.
No desfile, não havia praticamente nenhum veículo novo, excepção feita para alguns camiões de transporte (com características civis).
Lá estavam as velhas Chaimite, construídas para combater em África e que fizeram a revolução, lá estavam os M-60 fabricados quando ainda havia União Soviética para combater, e que já viram o chão do Iraque e do Koweit na primeira guerra do golfo em 1991.Lá estavam os carros de transporte de pessoal M-113, obsoletos e com blindagem inferior à das carrinhas blindadas IVECO que a GNR levou para Timor, lá estavam enfim, as vetustas G-3, que novelas infindáveis não conseguem substituir.

Os militares a desfilar fizeram sem dúvida o seu melhor. Mas não se podem fazer omeletes sem ovos. Trinta anos de desleixo, trinta anos de desinvestimento, trinta anos de esquecimento, trinta anos de cabeça metida na areia deixam marcas profundas.

Como nota triste, ficam ainda as declarações do Primeiro Ministro José Sócrates, que demonstrou não ter a mais pequena noção do estado de obsolescência dos meios que estavam a desfilar perante si, e que não percebeu o ridículo em que caiu, ao estar a explicar que as Forças Armadas estavam bastante bem equipadas, quando ainda não se tinha dissipado o cheiro a óleo queimado do carro de combate que avariou em pleno desfile.

Mas podemo-nos também colocar uma questão interessante.
Se dos carros de combate M-60, aqueles que desfilaram eram os melhores (e é o que se espera num desfile - que o que é apresentado seja o material mais recente e mais operacional), o que podemos esperar da operacionalidade da Brigada Mista em Santa Margarida?
Será que ainda temos brigada?
Será que ainda temos exército ?

Esperemos que sim, e que a homenagem que lhe foi prestada neste dia pelo Presidente da República se venha a justificar plenamente.

Este texto é da autoria de Paulo Mendonça e foi publicado em 10.06.2006.


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