Portugal
Sociedade / Política

Nunca seremos espanhóis !

por Paulo Mendonça
14.08.2006


Hoje, 14 de Agosto de 2006, comemora-se o 621º aniversário da batalha de Aljubarrota.

É apenas mais um aniversário de um acontecimento que para a maioria das pessoas é longínquo, pouco significativo e mesmo quase esquecido, quando não totalmente desconhecido.

No entanto, Aljubarrota representa um dos, senão o mais significativo e claro grito da vontade de um pequeno povo, que habitava o extremo ocidente da Europa. Esse povo, que busca as suas origens - juntamente com o seu apreço pela Liberdade - na resistência que os povos lusitanos ofereceram ao poderoso Império Romano, desde o segundo século Antes de Cristo. Esse povo sempre manteve as suas particularidades e características próprias

Essa determinação e características, reforçam-se depois da queda do império, romano com a existência no noroeste peninsular de um reino Suevo, quando no resto da península se estabelecia o domínio visigodo. Esse domínio que acabou por ser conseguido, foi efémero e nunca efectivo, porque a península sobre o domínio dos visigodos germânicos foi uma manta de retalhos em que vários povos lutavam contra o domínio do governo central de Toledo.

As invasões árabes, vieram vincar mais uma vez a diferença, quando no nordeste peninsular onde se encontrava o principal núcleo populacional a presença muçulmana se limitou a uns meros 50 anos, que não permitiram que a influência cultural árabe-muçulmana se estabelecesse, como aconteceu por exemplo no sul de Espanha, e sem que naquele país tivesse ocorrido um movimento migratório de norte para sul com as mesmas características.

Mais tarde, no século XII, essa vincada identidade própria sobrevem mais uma vez, no apoio dos Municípios e dos homens livres a Afonso Henriques, na sua luta contra o projecto Galego de reunificação da Gallaecia.

A independência de Portugal, foi um acto normal e inevitável. Tão inevitável que praticamente não houve oposição do Reino de Leão e Castela à independência.

A luta contra os muçulmanos, criou no entanto alianças tácticas com os outros reinos cristãos da península, as quais ocorreram entre Portugal e Leão e, ou Castela, como ocorreram entre Castela e os reinos da região oriental da península, os reinos da Marca Hispânica de Carlos Magno, que se viriam a juntar numa unidade política chamada Coroa de Aragão, com a qual Portugal também estabeleceu tratados, tendentes a controlar a expansão castelhana para sul.

Castela no entanto, não deixou de considerar a possibilidade de voltar a dominar a faixa ocidental da península, e a batalha de Aljubarrota, vem coroar de forma gloriosa, o esmagamento das hostes castelhanas, pesadamente apoiadas pela cavalaria pesada francesa. A humilhação foi de tal forma insuportável, que o rei castelhano mandou rezar missas durante meses, a pedir desculpa pelo crime da soberba, ao qual foi atribuída a catástrofe.

Embora mais tarde, como consequência das erróneas políticas que levaram à batalha de Alcácer Quibir, Portugal tivesse perdido a autonomia que correspondia a um estado soberano, o país manteve a sua identidade própria, a sua língua e os seus usos e costumes.
E quando foi necessário lutar contra Filipe III, um rei que traiu os compromissos dos seus antecessores, o país levantou-se mais uma vez contra a tentativa de castelhanizar Portugal, e mais uma vez, venceu.

Mas o facto de termos sempre conseguido esmagar as «hostes castelhanas», mesmo quando estas são pesadamente apoiadas por potências europeias (nomeadamente a França) não devemos pensar que a nossa independência está definitivamente assegurada.

Mesmo depois da restauração da casa de Bragança e do fim da dinastia Austríaca dos Habsburgos (ou dinastia Filipina), os perigos continuaram. Castela, acabou por entrar em guerra com os outros estados que constituíam a federação governada pela família Habsburgo desde Madrid. Desse conflito, com a coroa dos Habsburgos Hispânicos num extertor final acabaria por resultar o fim do império hispânico. Mas o país que de seguida foi criado por influência francesa, não deixou de ter na sua raiz a ideia de que Castela é o passado e o futuro da península ibérica, e que todos os países da península se devem submeter aos seus usos, e aos seus costumes[6], a sua história, enfim à sua ditadura, que destruiu culturas inteiras, como foi o caso da nossa vizinha Galiza, outrora uma Nação com «N» e que hoje está reduzida a uma província sem cultura e sem raízes históricas, obrigada a falar castelhano, embora tenha conseguido algum desafogo económico, que alguns afirmam ser a paga por séculos de humilhação.

Em Portugal, os perigos não deixaram de existir e estão por todo o lado, especialmente entre os portugueses que são seduzidos pelas palavras melosas de espanhóis de origem castelhana, que entendem que o português é por natureza fácil de «levar» e que pode ser enganado sem grande esforço. Já entenderam que não se pode convencer um português a mal e por isso Castela tende a dissimular o seu orgulho castelhano, característica genética reconhecida em todo o mundo aos povos daquela origem, para evitar que os portugueses o rechassem vigorosamente.

No entanto, e exactamente por isso, como diz o povo, «com papas e bolos se enganam os tolos» e muita gente da «inteligentzia» em Espanha entendeu a História e retirou dela lições, tendo passado à acção.

Mário Soares, antigo presidente da República Portuguesa, ainda recentemente [1] e por ocasião de uma visita a Espanha de José Sócrates (já como Primeiro Ministro) fez-se eco das palavras do antigo embaixador da República Espanhola em Portugal, Sanchez Albornóz.[2], com o qual Salazar foi naturalmente deselegante, porquanto a política externa portuguesa tinha como objectivo evitar a guerra com a República Espanhola, tida como inevitável nos anos 30, quer por analistas civis quer militares [3].

Sanchez Albornoz: Normalmente citado como ibérista e federalista pelos iberistas portugueses, não deixa contudo de considerar Portugal um erro histórico.
Sanchez Albornoz, representava a Espanha republicana, mas que embora republicana, não renegava o seu cariz castelhano iberista, na medida em que via Castela, como a nação nuclear na construção do estado Hispânico.

Albornoz, como embaixador em Portugal, foi um importante agente na tentativa de desestabilizar o Estado Português, com o objectivo de construir a “Grande Ibéria” federal, [4] que ainda hoje como podemos ver pelas palavras claras de Mário Soares, está perigosamente na cabeça de alguns. A República Espanhola aprofundou as liberdades, e reconheceu os vários povos de Espanha, mas preparava-se claramente para englobar Portugal nessa realidade, onde inevitavelmente o poder e a influência castelhana seriam determinantes. Quanto a Salazar, a quem seguramente se reconhecem inúmeros erros de análise (que Portugal pagou caro demais) há que dizer que foi neste caso tremendamente racional. Mandou Francisco Franco lutar a guerra que ele não queria lutar, contra a República Espanhola.

Na quantidade de citações feitas por Mário Soares, dos rasgados elogios que Albornoz faz a Portugal, não consta porém (e é fácil de entender porquê) o mais importante de todos os comentários que aquele Historiador espanhol alguma vez fez sobre Portugal:

Diz Albornoz:
«Portugal é um acidente da História, que surge de um erro de um rei de Leão, Afonso VI, que decidiu premiar cavaleiros franceses que com ele lutaram contra os muçulmanos, oferecendo-lhes a mão das suas filhas».

Para o Historiador espanhol, a que certos sectores portugueses recorrem para demonstrar que em Espanha nem tudo é mau, e nem todos nos odeiam ou nos ignoram, Portugal, não passa de um erro de um rei.

Não importa que existisse uma clara identidade nesta região da península ibérica que já desde o tempo dos romanos se distinguia pelo seu apego ao direito a se governar. Já Estrabão escrevia: “A norte do Tejo estende-se a Lusitânia, a mais forte das nações da Ibéria, e aquela que durante mais tempo resistiu a Roma”. Não importam nenhuma das realidades apontadas no inicio deste texto sobre as claras e evidentes singularidades do ocidente peninsular. Nada importa, desde que se possa demonstrar que Portugal, é uma erro Histórico.

O estudo da História em Espanha, sofre de um problema grave, que é a interpretação da História com objectivos políticos. Essa distorção atinge um nível difícil de encontrar em qualquer Historiografia de um pais ocidental e vai desde datas trocadas e nomes distorcidos, à invenção pura e simples. Este comportamento foi admitido durante séculos como forma de justificar a existência de um país. Por isso, escritos como os de Estrabão que constituem marcos em qualquer estudo histórico minimamente sério sobre a península ibérica, são pura e simplesmente ignorados e muitas vezes pura e simplesmente distorcidos ou substituídos pela mentira histórica. As distorções sobre o Viriato espanhol, ou sobre o facto de a Lusitânia também ser parte de Espanha (o que é um absoluto disparate, pois a Lusitânia Romana, que tinha capital na actual Mérida, só foi criada séculos depois do fim da resistência dos Lusitanos) estão por todo o lado, mesmo em publicações ditas sérias, mas que sobre Portugal e o ocidente da península pecam normalmente pela mentira e pela distorção.

Perante esta realidade objectiva, reforçada todos os dias pelo comportamento aviltante de órgãos de comunicação social de origem castelhana [5], com noticias inventadas ou distorcidas sobre Portugal, torna-se clara a nossa opção.

Torna-se clara a opção dos portugueses livres, de hoje e de outrora, que existem constituidos em Nação e em Estado, por direito próprio que lhe conferiu a sua determinação e vontade férrea de ao longo de muito séculos defender, como lhe chamou Camões «A Lusitana antiga Liberdade».

Muito pode acontecer no futuro, e é importante que os portugueses estejam alerta para os problemas que o país inevitavelmente virá a enfrentar, mas a determinação que ao longo de tantos séculos este povo tem mostrado, e o seu apego à Liberdade, junto ao facto de Castela ser sinonimo de Espanha, fazem-me crer que no futuro, podemos até vir a ser europeus, franceses ou marcianos...

Mas nunca, nunca seremos espanhóis!


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[1] Texto disponível no site da fundação Mário Soares, publicado aquando da visita de José Sócrates a Espanha em 2005.
[2] Historiador de origem castelhana, nascido em Madrid em 1893 e falecido em 1984.
[3] Referências a esta realidade são encontradas em obras de António José Telo ou em «Debaixo de Fogo, Salazar e as Forças Armadas» de Telmo Faria, entre outros.
[4] Como o provam o contactos entre Manuel Azanha, o primeiro ministro espanhol com líderes republicanos portugueses afastados com o golpe de 28 de Maio de 1926, ou a criação de formações políticas destinadas a desestabilizar o regime e organizadas a partir de Madrid, com recursos da república espanhola, como os «Amigos de Portugal» de que fazia parte Dolores Ibarruri, La passionária.
[5] Vide por exemplo o canal História com as suas produções próprias sobre a «Ibéria» onde é sempre apresentada a visão castelhana, e onde a distorção chegou ao ponto de anunciar o Paquete «Santa Maria» como um paquete espanhol, ou Ramón Franco como o primeiro homem a atravessar o atlântico sul (vários anos depois de Gago Coutinho e Sacadura Cabral).
[6] Conforme propôs o conde-duque de Olivares ao rei, durante o período de transformação dos estados ibéricos num estado unificado e que levou à separação da Catalunha no verão de 1640 e de Portugal, alguns meses depois.

Este texto é da autoria de Paulo Mendonça e foi publicado em 14.08.2006.


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