Ásia central
Sociedade / Política

Um alerta no Afeganistão

por Paulo Mendonça
15.09.2006


Ao contrário do que muita gente já parece ter esquecido, a principal consequência directa dos atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001, não foi a remoção de Saddam Hussein do governo do Iraque, mas sim a intervenção no Afeganistão.

Quando os países da NATO, invocaram a 12 de Setembro de 2001, o Art. 5 do Tratado de Washington, passaram a ficar vinculados a essa decisão.

A partir de aí, vários países europeus enviaram contingentes de tropas para o Afeganistão, com o objectivo de pacificar o país.

Na realidade, foram as tropas americanas que inicialmente tiveram praticamente todo o trabalho, apoiando a Aliança do Norte e colocando tropas no terreno que apoiaram aquela aliança e permitindo a colocação no poder em Kabul de um governo pró-ocidental.

Posteriormente, quando a situação parecia pacificada, outros países europeus começaram a enviar mais tropas para o Afeganistão, que aparecia como um problema de resolução a longo prazo, mas que não apresentaria problemas de maior no futuro.

No entanto, parece que as previsões não se concretizaram, e a situação não só não melhorou, como piora a olhos vistos.

Nas últimas semanas o numero de vitimas dos combates com forças Talibãs, aumentou consideravelmente e as tropas de alguns dos países da NATO encontraram-se mesmo em algumas situações sob cerco dos terroristas, embora a clara superioridade técnica das forças ocidentais acabasse por se sobrepor.

Mas há um outro problema neste momento no Afeganistão.

Dos vários países que se encontram no terreno, apenas quatro deles estão na disposição de enviar tropas para zonas de combate. Além dos britânicos, dos canadianos dos holandeses e dos americanos, os restantes países estão e continuam a estar absolutamente relutantes em envolver as suas forças em operações e ataques militares, que são considerados necessários se houver alguma esperança de desalojar os Talibã dos seus ninhos em montanhas e zonas fortificadas.

No inicio desta semana, os comandos da NATO no Afeganistão, pediram mais 2000 homens com os quais pretendiam completar os efectivos, mas essas tropas seriam tropas combatentes.

O resultado, foi que ninguém se mostrou na disposição de enviar reforços para um cenário onde o numero de combatentes islâmicos tem vindo a aumentar exponencialmente. Os países com mais capacidade para cooperar, a Itália e a França, escudaram-se no seu envolvimento no Líbano e os restantes países por uma ou outra razão, não consideraram oportuno ou possível o envio de tropas.

Os alemães recusaram-se a transferir tropas desde as regiões relativamente pacíficas do norte, para o sul onde predominam os afegãos de etnia Pastu.
Sem reforços, as tropas presentemente no território, podem até continuas as suas operações, mas as suas possibilidades de sucesso serão cada vez menores. Os países que suportam o grosso dos combates, mais tarde ou mais cedo vão começar a perguntar porque devem ser eles a fazer o trabalho pesado, enquanto os outros se limitam a enviar forças para fazer o patrulhamento.

Se as opiniões públicas da Europa não entenderem que pode ser a sua segurança física, nos seus próprios lares a ser colocada em risco se o Afeganistão for abandonado à sua sorte, o futuro é inevitável. Mais uma período de convulsões sociais e guerras de guerrilha num país que tem de um lado o Irão que pretende ser nuclear e do outro o Paquistão que já o é e que corre o risco de em qualquer movimentação golpista, ver o controlo do país cair nas mãos dos fundamentalistas islâmicos.

Presentemente encontra-se no Afeganistão um pouco mais de 20.000 militares da NATO e 80% deles pertencem a sete países:

5400 britânicos
2700 alemães
2000 canadianos
2000 holandeses
1600 italianos
1300 americanos
1000 franceses

Recentemente, o governo da Polónia avançou com a oferta de mais 1000 militares, mas ainda não se sabe se essas tropas vão ser empregues em combates directos com o movimento Talibã.

A estes juntam-se cerca de 19.000 americanos, fora da estrutura da NATO.

Este texto é da autoria de Paulo Mendonça e foi publicado em 15.09.2006.


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