América do Norte
Geoestratégia

Estado de Negação

por Pedro Brás
03.10.2006


A publicação nos Estados Unidos do livro de Bob Woodward «State of Denial» embora possa ser entendida como uma forma de exercer pressão sobre a administração Bush e o Partido Republicano em época de eleições, vem demonstrar e também confirmar muitos dos erros que se temia tivessem sido cometidos pela administração Bush.

Desde o inicio, que foi vendida à opinião pública a ideia do Iraque armado de armas de destruição maciça, sem que a argumentação utilizada fosse convincente. Uma parte da população americana não comprou a ideia e a Europa pura e simplesmente não acreditou nela, embora alguns políticos europeus entendessem que acabar com a ditadura de Saddam poderia ser um bom negócio.

A operação contra o Iraque era uma operação destinada a destituir um ditador num país do médio oriente onde o fundamentalismo islâmico não tinha presença, exactamente pelo facto de o próprio ditador exercer um férreo controlo sobre a religião.
Sem Mulahs habituados a interferir na política e na gestão dos assuntos do Estado, o Iraque parecia ser um alvo ideal para implantar a democracia ocidental.

Para Washington, o Iraque seria a primeira democracia do Médio Oriente.

A campanha militar não decorreu sem problemas. Donald Rumsfeld foi muitas vezes acusado de ter reduzido o numero de efectivos a um mínimo, o que poderia ter colocado a operação em causa, mas Rumsfeld via as forças americanas apenas como uma pequena ou média força militar que poderia remover Saddam Hussein do poder, permitindo rapidamente a criação de um governo Iraquiano.

Para Rumsfeld, seguir-se-ía a estabilização do país e a saída da grande maioria dos contigentes americanos, ficando apenas as bases, normalmente longe dos centros populacionais e quase passando despercebidas.

A falta de efectivos, não permitiu que toda a estrutura e organização militar e militarizada do Iraque fosse destruída. Os iraquianos tinham preparado a rede de resistência, e existindo oposição armada, quando se tornou evidente que os americanos eram poucos e não conseguiam estar em todo o lado, outros movimentos apareceram e começaram a espalhar o terror.

Durante a fase inicial da queda de Saddam, os americanos, com um numero mínimo de tropas do terreno, e tendo ordens para dar a impressão aos iraquianos de que as estruturas do poder haviam caído, incentivaram a população a que se entregasse a uma desenfreada orgia de roubos, que marcaram a primeira fase da operação americana no Iraque logo a seguir à queda de Saddam.

A presença americana no Iraque começou sob o signo do Far-West, onde só faltaram os pistoleiros de chapéu Texano. Por todo o lado iraquianos novos e velhos, pequenos e grandes, homens e mulheres carregavam móveis, carpetes, pratos e telhas, enfim, tudo o que pudesse ser roubado.

A democracia que os americanos começaram logo a mostrar ao Iraque era a democracia da lei do mais forte, onde quem tivesse mais força poderia roubar mais. Tudo começou mal.

A América, não entendeu os problemas que se levantavam no Iraque, nomeadamente o problema que constitui ter uma democracia num país dividido pela religião.

Na Europa, existe na Irlanda do Norte um problema que continua e perdura, porque Católicos e Protestantes se degladiam entre si, pesando embora ambos entendam as vantagens da democracia.

No Iraque, que nunca entendeu quais as vantagens da democracia, onde a religião tem mais facilidade em justificar a retirada do direito de voto para as mulheres que a sua concessão, tudo fazia prever que os problemas piorassem.

Hoje, a evolução da situação no Iraque permite concluir que, embora parte da administração Bush continue a negar o óbvio, existe já uma situação de guerra civil, que se pode comparar à situação de guerra no Vietname, em que o norte lutava contra o sul.

O Iraque estava unido pela força de Saddam Hussein e do seu regime despótico. Sem aquele regime, a realidade veio ao de cima. As fronteiras do médio oriente, desenhadas com régua e esquadro nas chancelarias europeias, são fronteiras que não correspondem a uma realidade étnica coesa, o que acaba por inevitavelmente levar a conflitos e a choques de conceitos com origem na religião, e quando não está estabelecido qual é a etnia dominante.

As coisas estão a correr mal, muito mal

Kissinger
De todas as coisas que se referem no livro, há no entanto uma especialmente preocupante, quiçá a mais preocupante de todas.
Ao que consta, entre as novas personagens com acesso directo à Casa Branca encontra-se o antigo secretário de Estado Henry Kissinger.

Kissinger, é o último político americano relevante vivo, que teve uma relação directa com a guerra do Vietname.
Kissinger, que ficou conhecido por alguns dos maiores disparates dos anos 70, como o apoio ao general Pinochet, o apoio à invasão Indonésia de Timor, ou pela afirmação de que Portugal estava destinado a tornar-se um país comunista, é provavelmente o político mais sobre valorizado na história da segunda metade do século XX na América.

Que a administração Bush esteja a recorrer a uma personalidade como Kissinger, é sintomático, e quem vê a situação de fora não pode deixar de ficar com uma só opinião ou ideia na cabeça:

Desespero.

Este texto é da autoria de Pedro Brás e foi publicado em 03.10.2006.


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