Portugal
Sociedade / Política

Portugal: Notas sobre a entrevista do Ministro da Defesa

por Paulo Mendonça
06.11.2006


Em entrevista que deu ao programa televisivo «Diga lá excelência» do canal 2 da televisão pública, o Ministro da Defesa, Nuno Severiano Teixeira teceu várias considerações sobre as forças armadas, a sua modernização, reestruturação e rearmamento.

Forças portuguesas em cenários internacionais

Não deixa de ser interessante verificar que o ministro, considera que Portugal é um país com uma grande participação em forças internacionais, muito acima das nossas capacidades.

No entanto, os números parecem contradizer o ministro.
Em qualquer das recentes operações internacionais, a presença portuguesa é pouco significativa, e consegue estar abaixo do que seria de esperar de um país com o nosso tamanho, dimensão demográfica e capacidade económica.

No Líbano, por exemplo, para onde vão 140 militares portugueses, foram também enviados militares do país vizinho.
É evidente que Portugal sendo quatro vezes menor que a Espanha, e tendo ume economia cinco vezes mais pequena, não se pode comparar à Espanha, no entanto há uma comparação proporcional.

Ora se a Espanha é cinco vezes mais rica que Portugal, o normal seria que Portugal tivesse uma participação que fosse de 20% da participação espanhola. No entanto, a verdade é que a Espanha tem uma participação superior a 1200 homens, ou seja, quase nove vezes superior à Portuguesa.
Mantendo a proporcionalidade com um contingente espanhol, Portugal deveria ter enviado para o Líbano um contingente de 240 homens. No entanto, vamos enviar apenas 140.

Estes exemplos repetem-se em praticamente todos os cenários, e quando começamos a fazer contas, as perguntas começam a aparecer e não parecem haver respostas. Não é verdade que Portugal tenha uma grande participação em operações internacionais, e a participação portuguesa nem sequer consegue ser proporcional à dimensão económica do país.

F-16 MLU. Atrasos, e aviões oferecidos ainda nos caixotes
F-16 da Força Aérea

Os comentários feitos a propósito dos F-16 - ou da venda dos F-16 – mostraram-nos mais que a indecisão do ministro (que tem razões para não responder à pergunta) o completo desconhecimento por parte das senhoras bem vestidas e bem educadas que faziam o papel de «perguntadeiras», e que dirigiam a emissão.

Perguntado sobre em que fase estava a venda dos F-16, o ministro evidentemente disse que a situação não estava a ser estudada, e com toda a razão.

Nuno Severiano Teixeira não pode ter o caso em estudo, pela simples razão de que Portugal não tem F-16 para vender e não se pode vender o que não se tem nem se sabe quando se vai ter.

As senhoras perguntadeiras, certamente bem intencionadas, fizeram mesmo referência aos aviões que «comprámos» desconhecendo que os aviões que estão encaixotados não foram comprados, mas sim oferecidos pelos Estados Unidos, e que como aqueles que Portugal tem, há centenas nos Estados Unidos para serem entregues se houver interessados que possam ter uma autorização do congresso americano.

Navio de Apoio Logístico: Mais falta que os submarinos, mas não os substituem
Submarinos e Navio de Apoio Logístico

Também é interessante analisar a opinião do ministro relativamente aos submarinos para a marinha e sobre o tão necessário Navio de Apoio Logístico, que permitiria a Portugal (por exemplo) enviar para o Líbano militares, sem ter que estar dependente do afretamento de navios, dispondo ainda se necessário de um navio equipado com capacidade para evacuação sanitária e apoio médico.

O ministro afirmou que teria preferido que o Navio de Apoio Logístico fosse construído antes dos submarinos porque é mais urgentemente necessário.

Infelizmente, a forma como decorreu a entrevista, levou os espectadores a pensar que o ministro preferia comprar o Navio de Apoio Logístico (NavPol) em vez dos submarinos.

Até a imprensa escrita se fez eco disto, referindo que Nuno Severiano Teixeira desautorizou Paulo Portas, o ministro que assinou o contrato para a compra dos submarinos.

Na verdade, cada submarino tem um custo equivalente a dois Navios de Apoio Logístico, pelo que os dois submarinos adquiridos custam aproximadamente o mesmo que quatro NavPol.

Portanto, o que o ministro disse, só pode ser interpretado como uma afirmação de que o NavPol deveria ser construído em primeiro lugar, e só depois se deveria dar inicio ao processo dos submarinos. No entanto, a ligação entre o projecto do NavPol e o contrato para o fornecimento dos submarinos, acabou por condicionar a ordem destas aquisições.

Ficaram também de fora, questões como a modernização do exército, as falhas conhecidas em termos de reservas de munições, ou o atraso do programa MLU.

No entanto, compreende-se que, com uma opinião pública desmoralizada e condicionada por emissoras de televisão que não cumprem a sua função, e tentam denegrir a imagem de Portugal perante os portugueses, a justificação da necessidade de manter umas forças armadas dignas seja difícil.

Este texto é da autoria de Paulo Mendonça e foi publicado em 06.11.2006.


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