Portugal
Sociedade / Política

Acidente na Nazaré: Sacudir as culpas

por Paulo Mendonça
04.01.2007


O trágico acidente ocorrido a norte da Nazaré, com a morte de três pescadores e a morte previsível dos outros três que continuam desaparecidos resultou em várias criticas quer por parte das associações profissionais de pescadores quer mesmo por parte de autarquias.

A morte em circunstâncias trágicas de pescadores é infelizmente algo que continua a acontecer, lembrando as tragédias que com alguma frequência aconteciam no passado, nomeadamente na vila da Nazaré, antes da construção do porto de mar.

Muitas vozes já se levantaram para criticar a falta de meios e o atraso na prestação de auxilio, que em última análise esteve na origem da morte de pescadores, alguns dos quais foram vencidos pelo cansaço, tendo falecido na sua sequência.
O único tripulante que se salvou era de origem ucraniana, e não só estava habituado a condições climatéricas muito adversas, como além do mais tinha treino de mergulhador, como foi divulgado pela comunicação social.

No entanto, com o passar do tempo, as coisas começam a tomar forma, e muitas duvidas e perguntas começam a ter que ser feitas.

A primeira das quais, é a alegação de que o pequeno pesqueiro, «Luz do Sameiro» tinha por hábito se aproximar demasiado da costa, contrariando regras básicas de segurança além da própria legislação, para pescar Robalo, um peixe com alto valor comercial e que se pesca na zona de rebentação.

Ao ficar com as redes presas no fundo, na zona de rebentação, o pequeno barco de pesca, com um deslocamento de apenas 45 toneladas facilmente se voltou e afundou em pouquíssimo tempo.

Mais uma vez, a perguntas têm que se fazer:
Como estava a embarcação preparada em termos de segurança, para que a própria balsa salva-vidas não se tenha solto automaticamente?
O que estava tão mal feito a bordo do malogrado «Luz do Sameiro» para que nem a balsa se tenha soltado?

Mas mais que isso, alguém tem que perguntar, porque NENHUM dos tripulantes utilizava um colete de salvação, quando estava a operar numa área extremamente perigosa como é a zona de rebentação numa praia oceânica.

Há que investigar tudo, e encontrar responsáveis, mas não podemos pura e simplesmente bater em quem parece à primeira ter mais responsabilidades.

Esta situação é parecida com a dos meios aéreos para apagar os incêndios, quando é evidente que muitas corporações de bombeiros não têm nem meios nem pessoal formado para combater fogos florestais, deixando muitas vezes que estes progridam, deitando depois as culpas para a falta de meios aéreos.

A existência de meios aéreos, não serve para retirar responsabilidades e deveres a outros meios de salvamento, como não deveria servir para retirar responsabilidades aos que têm a obrigação de combater os incêndios em terra.

Os meios aéreos são sempre o último recurso, quando se conclui que nada mais há que se possa fazer. A operação de salvamento é uma operação complicada arriscada e perigosa, também para as tripulações dos meios aéreos.

Aproveitando a dor das pessoas e tentando solidarizar-se com elas, um presidente de câmara do norte de Portugal, afirmou que o seu município se disponibilizava para construir a pista para um helicóptero.

A irresponsabilidade de alguns políticos, fica demonstrada com as tristes declarações do elemento. É evidente que seria possível construir inúmeras pistas para helicópteros. Aliás, um helicóptero por definição até pode utilizar um troço de estrada, o problema não é a pista, o problema é que para operar um helicóptero como o EH-101 é necessária uma base aérea para o fazer, e um grupo de equipas desde pilotos, assistentes e pessoal de terra, que para se manter operacional 24 horas por dia precisa de um enorme numero de militares e civis, que têm que ser pagos.

A colocação de uma base para um helicóptero no norte do país, considerando apenas as exigências quanto a pessoal, implica um gasto anual nunca inferior a €200.000. A pista, que poderá durar 10 anos, custará €35.000. Ao fim de dez anos, os custos de tal base, atingiriam 57 vezes o custo da pista (e isto apenas para considerar salários e fazendo as contas por baixo).

Mas mais que o gasto de duzentos mil Euros, há a afirmação efectuada pela Marinha de que nas circunstâncias em que o acidente ocorreu, nem que a base de helicópteros estivesse na praia da Nazaré teria sido possível evitar as vítimas mortais.

Mais uma vez, tivemos políticos interessados em “estar próximo às populações” mas completamente a leste dos verdadeiros problemas. A vigilância, a formação adequada, a educação cívica, que são algumas das razões que levaram pescadores a violar as leis, a não cumprir as regras, e a pagar com a vida pelos erros que cometeram.

Este texto é da autoria de Paulo Mendonça e foi publicado em 04.01.2007.


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